Monday, May 29, 2017

Sobes o escalier et tu estás lá

Que mundo maravilhoso este, feito de múltiplos cruzamentos, tantas línguas, um só destino: sermos felizes. O quente tórrido, em terras frias, confunde-nos a mente mas não nos impede de observarmos, maravilhados, este mundo. Já estão à Paris avec meus pais. Sorrimos: não dão por nada; a mescla de línguas sai-lhes naturalmente; um crioulo que não sabem que lhes pertence, que dominam na perfeição, sem que entendamos bem as regras, qual o critério para utilizar uma ou outra.
Sente-se, um stress calmo, a felicidade de quem realiza um sonho, a emoção de os ver voar, tomarem conta do destino. No final, o que conta é o sorriso, o abraço, o estar com eles, com a família, os amigos, com velhos e novos conhecidos, comungando duma mesma busca, dum mesmo querer. Convidam-nos a participar na sua alegria, partilhar estes momentos de felicidade. Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei, faz todo o sentido, nestes momentos, quando nos sentirmos acolhidos por todos, quando todos nos sorriem, abraçam e beijam. Somos os amigos que vieram de Portugal; sabe bem perceber que este nosso pequeno gesto é uma prenda para eles.
Vamos para a voiture. Mergulhamos em prados verdes, imensos, em rectas que parecem não ter fim, que nos levam aos destinos. Estamos, simplesmente, porque queremos estar, de outro modo não poderia ser. Sente-se a felicidade de quem realiza um sonho, uma cumplicidade natural entre eles: são jovens, de origens diversas, outras tantas âncoras, os mesmos quereres. Recebem a graça de uma união, fecham mais um elo desta corrente, perpetuam a herança. Os avós, os pais, para aqui vieram; eles aqui pertencem, aqui continuarão, recriando o mundo, com ligações, cada vez mais ténues mas sempre fortes, a esse passado. O livro do amor diz isso mesmo: que estes momentos fazem a história das uniões, da nossa história, que afinal tudo está ligado, que os que já não estão continuam a viver em nós, estão presentes.
Chamam por nós: Toi e ta femme, os dois. Partimos na certeza que os deixamos felizes. Hallelujah mons amis.

Tuesday, April 18, 2017

Lá, no destino

Não planeámos; não poderíamos antecipar. Para tal era preciso saber que existia, que essa possibilidade havia, que tal poderia fazer parte do futuro, daquilo que nos estava reservado acontecer. Na verdade, sem o saber, ajudámos o destino, o indelével correr dos dias, a fortuna.
A gare aérea tornou-se familiar. À nossa volta uma massa de gente dormente olha os pequenos écrans, aguarda. O dia está a nascer, o avião descolará em breve. Lá, no destino, ele estará à nossa espera, ela juntar-se-á um pouco depois, numa inversão que já antes tínhamos sentido, que passou a normal. Percebemos que, naturalmente, a vida trilha novos rumos, os portos ganham distintos significados, acolhemos o destino, sem surpresa, como se sempre tivesse sido nosso, como outro não pudesse ser. Estamos na Páscoa: quando a esperança vence a morte e o inevitável destino fica mais fácil de aceitar, simplesmente acontece, maravilha-nos. Na verdade, doutro modo não gostaríamos que fosse.
Foi fácil, acenou: primeiro reencontro, primeiros abraços. Umas voltas mais, um comboio que chega do norte e ela também passa a estar. O intervalo acabou na ínfima fracção do cruzar dos olhares, do contacto, dos beijos, do sentir; a conversa continuou onde algures tinha sido interrompida, no mesmo ponto de sintonia, na frase que nunca está acabada. Observamos a continuidade daquilo que somos, que sempre seremos. Percebemos então que não é um reencontro, que não existe lugar à nostalgia, é, simplesmente, a alegria do encontro, do estarmos juntos numa nova paragem, o prazer de sermos levados por ele, a confirmação que o comboio continua nos carris, que a linha é redonda mas nunca passa pelos mesmo lugares, às mesmas horas, que a surpresa está sempre presente, que nunca deixaremos de nos espantar, de ficarmos boquiabertos com o correr dos dias, com a vida; nunca deixaremos de sorrir com o sorriso dela, com o que ele nos ensina. Estão diferentes, sendo, precisamente, os mesmos.
Temos tempo, talvez como nunca tivémos; percorremos devagar os lugares, provamos as múltiplas cevadas levedadas, os sabores daqui, os cheiros, o frio temperado com fugazes raios de sol. Estamos por conta dele; este é o seu território; por uma vez não precisamos ter plano, preocupar-nos; basta-nos ir, seguros que estamos em boas mãos, saboreando, em paz.
O cinzento contrasta com a luz que deixámos para trás. A babilónia cerca-nos, estranhamos a normalidade: aqui a Europa existe; temos o mundo num só lugar. Vamos aqui e ali, palmilhamos as ruas, ficamos a conhecer novos espaços. Chove, é o normal por estas bandas; há-de parar; o sol aparece a medo; temos tido sorte, com o tempo (e com algumas coisas mais). Aprendemos com eles novas formas de estar, de olhar a vida, de usufruir do espaço. O lugar é indiferente, desde que estejamos. Matámos saudades de passear juntos, sem destino, somente para estarmos perto até que o avião nos afaste um pouco novamente.

Tuesday, January 31, 2017

Corrente

Eles já não o são; eu deixei de o ser, faz algum tempo. Sinto-os aqui comigo, mesmo que longe; talvez me sintas longe, mesmo que perto. Tenho agora um pouco mais que a idade que terias quando me lembro de ti, do ires mas sempre voltares, do sempre estares, nunca faltares; do teu sorriso no meio de tudo aquilo, do teu olhar meigo, da tua mão, do cabelo apanhado; de tudo o resto que, talvez, só agora possa perceber e de tudo o resto que só mais tarde, quem sabe, alcançarei. Sinto agora o que, talvez, também tenhas sentido. Talvez não, certamente sentiste, como agora o sinto. Somente, sentiste sem o deixares transparecer, protegendo, naquela tua subtileza, naquele teu modo que não consigo imitar, que não consigo alcançar, que é só teu. Eles saíram de mim, como eu sai de ti; eles deixaram-me como eu te deixei; ficaram para sempre, como eu fiquei. Não estando, estão sempre comigo; não estando, estou junto de ti. O inevitável que não querendo aceitar, aceitamos; o inevitável que ignorando, sabemos que é assim mesmo, que doutro modo não o poderá ser. Sei que é assim que sempre quiseste que fosse, que queres que eu aceite que seja, que sentes ser o natural e maravilhoso correr do rio da vida. Só agora consigo olhar para ele, ver algum do seu curso, perceber as suas águas, da nascente até aqui, as tormentas, os estreitos e as calmarias; ver os pequenos botes em que eles viajam, atentos, corajosos, destemidos, sem preocupação no percurso. Somente sabem que tem que ir por ali, como eu soube as frágeis jangadas que tinha que apanhar para aqui chegar. Vejo-te ali mais adiante, na tua bela barca, calmamente navegando; fico atento, não te quero perder de vista.
Um beijo do sétimo filho

Saturday, December 31, 2016

Daqui a pouco é 2017

Daqui a pouco é um novo ano, um novo amanhã: único na continuidade dos anteriores. Acaba um ano em que, uma vez mais, o amanhã sempre foi daqui a pouco, mas sempre existiu. Um ano em que, oficialmente, passámos à condição de visitados - orgulhosos visitados -, em que eles passaram a vir cá e nós a esperar que, daqui a pouco, o façam de novo. O lugar de onde antes partiam e regressavam passou agora, naturalmente, a ser de visita. Um ano em que o lugar dos encontros do amanhã saiu do papel, em que cresceram as paredes que, daqui a pouco, albergarão as novas memórias, os novos amanhãs. Ano em que o Luís fez o caminho de regresso, procurou um amanhã junto de Adelaide. Dias em que seis actos de escrita passaram ao papel e multiplicaram-se em dezenas de abraços e sorrisos, no bom que é tocar no outro através da palavra, num belo mural de retornos, de pontes para que, em breve, a escrita encontre um outro amanhã, mais forte, mais belo.
Quando amanhã for, daqui a pouco, porventura não sentiremos grande diferença, porque afinal, dai a nada, um outro amanhã, continuo a este, estará a aguardar por nós.
Desejo que, daqui a pouco, comece um feliz ano para todos.

Wednesday, October 5, 2016

Até já

São dias de pressas e calmarias, um misto de apreensão e calma; de várias etapas; de lugares novos, outros nem tanto; de incertezas e confirmações; de algum cansaço. Uma vela em Santa Teresa, outra para São Jorge: fica protegida. O hábito faz o monge e nós já passámos por outras provas, já conhecemos estes passos, as escadas, as várias passagens, as estações desta via sacra. Saber alivia o peso, não evita a apreensão, torna o caminho mais simples, as decisões mais rápidas, deixa tempo para estarmos. Durante umas horas, entramos noutra dimensão, outros cheiros, ares e gentes. São muitos: faz calor; acotovelam-se nas estreitas ruas, nas centenas de restaurantes, cafés e lojas (tendas para eles; na verdade, uma enorme feira de vaidades e não só). Procuramos o que precisa para, uma vez mais, transformar o espaço, torná-lo seu, criar os laços de conforto, dar-lhe os cheiros, cores e formas que a identificam. É rápida na escolha, na metamorfose; logo diz que já está, que mais tarde acabará, que pudemos ir visitar a cidade, juntos partilhar o novo espaço.
Recuamos, procuramos perceber como chegámos aqui, qual o caminho que nos levou onde nunca imaginariamos, onde não poderíamos imaginar; alcançar o que nem inalcançável era, porque não fazia parte; chegar onde, afinal, sem o sabermos, sabíamos que queríamos chegar. Olhamos para ela e sabemos que assim é; pensamos nele e nenhuma incerteza subsiste.
O que tardava em passar, agora escoa-se entre os dedos. Juntos olhamos as águas do porto, os brancos navios, o grito das gaivotas, retardamos o tempo. Mais algumas compras, mais alguns mimos, uns últimos retoques e partimos. Sentimos o adeus, o até já, na certeza do reencontro, lá para o natal.