Monday, January 1, 2018

Este foi diferente

Existem anos assim, tão iguais, tão diferentes. Este iniciou-se numa esperança que só agora começa a concretizar-se; esperança que será do novo. Teve altos e baixos, como todos os anos, mas foi diferente: diferente na intensidade, como afinal os outros também; diferente na diversidade das emoções, como poucos outros o conseguiram. Diferente no adiar da promessa, na voz que constantemente parece questionar-nos se aquele é realmente o caminho, se fizemos bem em entrar em tal empreendimento. Diferente porque o lugar da casa ganhou forma, passou a existir. Diferente porque o Salvador quebrou o enguiço, amou por todos nós, entregou o coração a um momento mágico, a algo que nunca tínhamos sentido, a mostrar que a música é sentimento, que a alegria resulta desse sentir, da comunhão com os outros, que a última a morrer é mesmo a tal a que, cobardes ou valentes, nos agarramos sempre. Mesmo no inferno das chamas ela existirá, mesmo que não se cumpra, mesmo que só possa ser lembrada pelos afectos de quem tenta que não se esqueça, de quem insiste em estar presente, em ser diferente. Diferente porque o discípulo de Pedro, a quem o Salvador deu as chaves da esperança, veio visitar-nos, sempre pobre de coisas, sempre rico de amor. Foi com amor que o Zé, que também é Pedro, passou por nós, seguiu viagem, na esperança que o seu sorriso continue a ecoar para sempre, que o Pedro, que a voz rolava nas ondas hertzianas, se junte a ele, numa qualquer estúdio, lá em cima, onde anjos e arcanjos sejam o seu coro, uma esperança.

Friday, December 22, 2017

Continuamos

Sossegados na praia, levamos com a primeira onda. Incrédulos, sem nada entender, somos arrastados, puxados para o fundo. Mergulhamos, apáticos, a-nes-te-siados, qui-e-tinhos, sem piar. Amordaçados, aguardamos que a tempestade passe, que ao menos nos expliquem porque estamos ali, que mal fizemos, para onde nos levam. Simplesmente, dizem-nos que assim tem de ser, que nos aguentemos à bronca, que tentemos nos manter à tona de água, caladinhos. Assim fazemos; aguentamos suspensos na imponderável e efémera incerteza, na certeza que há quem esteja rezando por nós. Nova vaga, ondas altas levam-nos mais para baixo, empurram-nos para um túnel subterrâneo, para mais uma passagem, para um mundo ensurdecedor onde seres ocultos observam o nosso interior, nos analisam duma ponta à outra. Em segredo decidem que não é suficiente, que a uma última prova teremos que nos submeter. Chamam os peixes-agulha e as micro-piranhas. Sem anjo, por perto, que nos acuda, aguentamos as picadas, o arrancar da carne, mais esta provação. Completamente zonzos entregamos-nos nas mãos do Senhor dos Passos, ao calor da mão que nos acompanha, a uma esperança que nos faz acreditar que tudo irá acabar. Por fim, somos despejados na mesma praia donde partimos, doridos, atordoados, sem perceber o que nos aconteceu, porque fomos violentados daquele modo, qual o nosso pecado, ainda não acreditando que tudo acabou, continuando sem saber onde estivemos nos últimos meses. Com um sorriso amarelo, apertam-nos a mão; dão-nos os parabéns. Desta feita safámos-nos; o longo instante acabou. Sentimos o peso a sai-nos de cima, saltamos da corda bamba para um chão mais firme, mergulhamos num sono profundo, um dormir de criança, como já não tínhamos faz muito. O Natal pode, finalmente, começar.

Friday, December 8, 2017

Suspenso

Existem dias assim, dias em a vida se resume a um enorme instante: tempo em que a vida continua à nossa volta mas nós estamos suspensos naquele momento, suspenso por finos fios, suspensos nas mãos de mágicos, na mão dum qualquer Deus. Tudo o resto desaparece, perde significado, importância; somente somos nós e aqueles que amamos. Suspensos, frios, basta-nos a mão que nos acaricia a cara, saber que está ali, que aquele calor existe. Somente nós, a mão quente, o frio no corpo, os ruídos em volta, suspensos. Somos puxados para o vazio, em queda livre, num misto dum doce adormecer com o pânico de não voltarmos à superfície. Sentimos uma estranha calma, como simplesmente estivéssemos a adormecer.Tomamos consciência do que afinal não queremos saber: somos o esquecimento do que somos; uns débeis trapezistas atravessando um fino cabo, da nascença até encontrar um ponto de não retorno. Quando tropeçamos, sentimos a iminência do abismo, o calor daqueles que, mesmo longe, presentem a nossa queda , se aproximam, e nos lançam a sua mão quente. Sabemos quem são, o seu calor dá-nos esperança, diz-nos que em breve voltaremos a estar em pé no trapézio, esquecidos da nossa indelével fragilidade. À nossa volta, os mágicos examinam os sinais nos fios que lançaram para nos salvar. Puxam um, aliviam outro, procuram restabelecer o equilíbrio. Em breve voltamos a ser quem somos.

Monday, May 29, 2017

Sobes o escalier et tu estás lá

Que mundo maravilhoso este, feito de múltiplos cruzamentos, tantas línguas, um só destino: sermos felizes. O quente tórrido, em terras frias, confunde-nos a mente mas não nos impede de observarmos, maravilhados, este mundo. Já estão à Paris avec meus pais. Sorrimos: não dão por nada; a mescla de línguas sai-lhes naturalmente; um crioulo que não sabem que lhes pertence, que dominam na perfeição, sem que entendamos bem as regras, qual o critério para utilizar uma ou outra.
Sente-se, um stress calmo, a felicidade de quem realiza um sonho, a emoção de os ver voar, tomarem conta do destino. No final, o que conta é o sorriso, o abraço, o estar com eles, com a família, os amigos, com velhos e novos conhecidos, comungando duma mesma busca, dum mesmo querer. Convidam-nos a participar na sua alegria, partilhar estes momentos de felicidade. Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei, faz todo o sentido, nestes momentos, quando nos sentirmos acolhidos por todos, quando todos nos sorriem, abraçam e beijam. Somos os amigos que vieram de Portugal; sabe bem perceber que este nosso pequeno gesto é uma prenda para eles.
Vamos para a voiture. Mergulhamos em prados verdes, imensos, em rectas que parecem não ter fim, que nos levam aos destinos. Estamos, simplesmente, porque queremos estar, de outro modo não poderia ser. Sente-se a felicidade de quem realiza um sonho, uma cumplicidade natural entre eles: são jovens, de origens diversas, outras tantas âncoras, os mesmos quereres. Recebem a graça de uma união, fecham mais um elo desta corrente, perpetuam a herança. Os avós, os pais, para aqui vieram; eles aqui pertencem, aqui continuarão, recriando o mundo, com ligações, cada vez mais ténues mas sempre fortes, a esse passado. O livro do amor diz isso mesmo: que estes momentos fazem a história das uniões, da nossa história, que afinal tudo está ligado, que os que já não estão continuam a viver em nós, estão presentes.
Chamam por nós: Toi e ta femme, os dois. Partimos na certeza que os deixamos felizes. Hallelujah mons amis.

Tuesday, April 18, 2017

Lá, no destino

Não planeámos; não poderíamos antecipar. Para tal era preciso saber que existia, que essa possibilidade havia, que tal poderia fazer parte do futuro, daquilo que nos estava reservado acontecer. Na verdade, sem o saber, ajudámos o destino, o indelével correr dos dias, a fortuna.
A gare aérea tornou-se familiar. À nossa volta uma massa de gente dormente olha os pequenos écrans, aguarda. O dia está a nascer, o avião descolará em breve. Lá, no destino, ele estará à nossa espera, ela juntar-se-á um pouco depois, numa inversão que já antes tínhamos sentido, que passou a normal. Percebemos que, naturalmente, a vida trilha novos rumos, os portos ganham distintos significados, acolhemos o destino, sem surpresa, como se sempre tivesse sido nosso, como outro não pudesse ser. Estamos na Páscoa: quando a esperança vence a morte e o inevitável destino fica mais fácil de aceitar, simplesmente acontece, maravilha-nos. Na verdade, doutro modo não gostaríamos que fosse.
Foi fácil, acenou: primeiro reencontro, primeiros abraços. Umas voltas mais, um comboio que chega do norte e ela também passa a estar. O intervalo acabou na ínfima fracção do cruzar dos olhares, do contacto, dos beijos, do sentir; a conversa continuou onde algures tinha sido interrompida, no mesmo ponto de sintonia, na frase que nunca está acabada. Observamos a continuidade daquilo que somos, que sempre seremos. Percebemos então que não é um reencontro, que não existe lugar à nostalgia, é, simplesmente, a alegria do encontro, do estarmos juntos numa nova paragem, o prazer de sermos levados por ele, a confirmação que o comboio continua nos carris, que a linha é redonda mas nunca passa pelos mesmo lugares, às mesmas horas, que a surpresa está sempre presente, que nunca deixaremos de nos espantar, de ficarmos boquiabertos com o correr dos dias, com a vida; nunca deixaremos de sorrir com o sorriso dela, com o que ele nos ensina. Estão diferentes, sendo, precisamente, os mesmos.
Temos tempo, talvez como nunca tivémos; percorremos devagar os lugares, provamos as múltiplas cevadas levedadas, os sabores daqui, os cheiros, o frio temperado com fugazes raios de sol. Estamos por conta dele; este é o seu território; por uma vez não precisamos ter plano, preocupar-nos; basta-nos ir, seguros que estamos em boas mãos, saboreando, em paz.
O cinzento contrasta com a luz que deixámos para trás. A babilónia cerca-nos, estranhamos a normalidade: aqui a Europa existe; temos o mundo num só lugar. Vamos aqui e ali, palmilhamos as ruas, ficamos a conhecer novos espaços. Chove, é o normal por estas bandas; há-de parar; o sol aparece a medo; temos tido sorte, com o tempo (e com algumas coisas mais). Aprendemos com eles novas formas de estar, de olhar a vida, de usufruir do espaço. O lugar é indiferente, desde que estejamos. Matámos saudades de passear juntos, sem destino, somente para estarmos perto até que o avião nos afaste um pouco novamente.