Monday, April 9, 2018

O anel da memória

Paz: nada mais; um anel de memórias; uma fina e indelével linha que está entre ela e os campos da selvajaria. Um circulo imperfeito, frágil, em suspensão, que queremos mas não podemos ignorar, que sabemos poder quebrar-se a qualquer momento. Entramos e somos invadidos pelo vazio, pela evidência, pelo clamor silencioso, pelo enorme respeito pelos nomes daqueles milhares de homens que, de ambos os lados, sentiram o anel a quebrar, foram empurrados para o abismo, pereceram na guerra.
Felizes por estarmos juntos, custa-nos acreditar no que sabemos ter acontecido, na lama e ruínas de outrora, no inconcebível, numa irrealidade que ali bem presente esteve, diversas vezes.
Lá do alto o António sorri aos netos e bisnetos, fica contente por ali terem ido, cem anos depois, por percorrem os campos da sua batalha, da sua e de outras guerras, as terras, as praias, agora belas, onde ele e os seus companheiros de armas encontraram o inferno, onde muitos ficaram para sempre.
Fecha-se um circulo das memórias, daquelas que, consciente ou não, passam através das gerações, que garantem a eternidade de cada um de nós, que nos obrigam a recordar, a olhar para o passado e querer manter intacto o anel da paz, o fundamental da memória: o não esquecer; o clamor dos mortos para que não se repita.

Friday, March 9, 2018

Princesa, acorda.

Faz anos que não o dizia. Voltei a dizê-lo como se nenhum intervalo tivesse havido, num exercício, assustadoramente belo, de normalidade. Por uma ínfima fração, na ainda escuridão, regresso, procuro o seu ombro e com um ligeiro abanar interrompo-lhe o sono, sinto a habitual reação.
Princesa, acorda, temos de ir.
Estou acordada, pai.
Espero, como sempre esperei, em continuidade, somente interrompida, por um longo instante. Tudo mudou mas o essencial manteve-se inalterado.
Bastou um sorriso, um abraço e voltámos a ser quem éramos na certeza que já não o somos.

Monday, January 1, 2018

Este foi diferente

Existem anos assim, tão iguais, tão diferentes. Este iniciou-se numa esperança que só agora começa a concretizar-se; esperança que será do novo. Teve altos e baixos, como todos os anos, mas foi diferente: diferente na intensidade, como afinal os outros também; diferente na diversidade das emoções, como poucos outros o conseguiram. Diferente no adiar da promessa, na voz que constantemente parece questionar-nos se aquele é realmente o caminho, se fizemos bem em entrar em tal empreendimento. Diferente porque o lugar da casa ganhou forma, passou a existir. Diferente porque o Salvador quebrou o enguiço, amou por todos nós, entregou o coração a um momento mágico, a algo que nunca tínhamos sentido, a mostrar que a música é sentimento, que a alegria resulta desse sentir, da comunhão com os outros, que a última a morrer é mesmo a tal a que, cobardes ou valentes, nos agarramos sempre. Mesmo no inferno das chamas ela existirá, mesmo que não se cumpra, mesmo que só possa ser lembrada pelos afectos de quem tenta que não se esqueça, de quem insiste em estar presente, em ser diferente. Diferente porque o discípulo de Pedro, a quem o Salvador deu as chaves da esperança, veio visitar-nos, sempre pobre de coisas, sempre rico de amor. Foi com amor que o Zé, que também é Pedro, passou por nós, seguiu viagem, na esperança que o seu sorriso continue a ecoar para sempre, que o Pedro, que a voz rolava nas ondas hertzianas, se junte a ele, numa qualquer estúdio, lá em cima, onde anjos e arcanjos sejam o seu coro, uma esperança.

Friday, December 22, 2017

Continuamos

Sossegados na praia, levamos com a primeira onda. Incrédulos, sem nada entender, somos arrastados, puxados para o fundo. Mergulhamos, apáticos, a-nes-te-siados, qui-e-tinhos, sem piar. Amordaçados, aguardamos que a tempestade passe, que ao menos nos expliquem porque estamos ali, que mal fizemos, para onde nos levam. Simplesmente, dizem-nos que assim tem de ser, que nos aguentemos à bronca, que tentemos nos manter à tona de água, caladinhos. Assim fazemos; aguentamos suspensos na imponderável e efémera incerteza, na certeza que há quem esteja rezando por nós. Nova vaga, ondas altas levam-nos mais para baixo, empurram-nos para um túnel subterrâneo, para mais uma passagem, para um mundo ensurdecedor onde seres ocultos observam o nosso interior, nos analisam duma ponta à outra. Em segredo decidem que não é suficiente, que a uma última prova teremos que nos submeter. Chamam os peixes-agulha e as micro-piranhas. Sem anjo, por perto, que nos acuda, aguentamos as picadas, o arrancar da carne, mais esta provação. Completamente zonzos entregamos-nos nas mãos do Senhor dos Passos, ao calor da mão que nos acompanha, a uma esperança que nos faz acreditar que tudo irá acabar. Por fim, somos despejados na mesma praia donde partimos, doridos, atordoados, sem perceber o que nos aconteceu, porque fomos violentados daquele modo, qual o nosso pecado, ainda não acreditando que tudo acabou, continuando sem saber onde estivemos nos últimos meses. Com um sorriso amarelo, apertam-nos a mão; dão-nos os parabéns. Desta feita safámos-nos; o longo instante acabou. Sentimos o peso a sai-nos de cima, saltamos da corda bamba para um chão mais firme, mergulhamos num sono profundo, um dormir de criança, como já não tínhamos faz muito. O Natal pode, finalmente, começar.

Friday, December 8, 2017

Suspenso

Existem dias assim, dias em a vida se resume a um enorme instante: tempo em que a vida continua à nossa volta mas nós estamos suspensos naquele momento, suspenso por finos fios, suspensos nas mãos de mágicos, na mão dum qualquer Deus. Tudo o resto desaparece, perde significado, importância; somente somos nós e aqueles que amamos. Suspensos, frios, basta-nos a mão que nos acaricia a cara, saber que está ali, que aquele calor existe. Somente nós, a mão quente, o frio no corpo, os ruídos em volta, suspensos. Somos puxados para o vazio, em queda livre, num misto dum doce adormecer com o pânico de não voltarmos à superfície. Sentimos uma estranha calma, como simplesmente estivéssemos a adormecer.Tomamos consciência do que afinal não queremos saber: somos o esquecimento do que somos; uns débeis trapezistas atravessando um fino cabo, da nascença até encontrar um ponto de não retorno. Quando tropeçamos, sentimos a iminência do abismo, o calor daqueles que, mesmo longe, presentem a nossa queda , se aproximam, e nos lançam a sua mão quente. Sabemos quem são, o seu calor dá-nos esperança, diz-nos que em breve voltaremos a estar em pé no trapézio, esquecidos da nossa indelével fragilidade. À nossa volta, os mágicos examinam os sinais nos fios que lançaram para nos salvar. Puxam um, aliviam outro, procuram restabelecer o equilíbrio. Em breve voltamos a ser quem somos.