As comadres

As comadres adoçam-me a boca, barram-me o pão a cada manhã, estão presentes a cada novo dia, vivem em frascos de doce vivo, em vividas fatias de marmelada. Enquanto o mundo vai de mal a pior, as minhas manhãs são adoçadas pelas mãos das mães da minha nora e do meu genro. Lá fora, está tudo doido e não há sinal que a coisa vá melhorar nos próximos tempos. Andam todos com passo apressado, em busca do vazio, dando ares de importantes. Sabemos que em casa que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Talvez seja o caso, mas os fornos estão ligados e na máxima potência, mas sem pão. Produzem ódio, máquinas infernais de destruição maciça.
Falta um pouco de doce no pão de muita gente, uns porque têm fome, outros porque precisam de adoçar as suas vidas, acalmar as raivas, resignarem-se ao facto que são simples mortais e que nada melhor existe que uma fatia de bom pão barrada com doce, cozinhado com amor, misturado a pensar naqueles que o irão provar, delicioso. Todos temos sombras e luzes, lados amargos, outros doces, mas somos todos passageiros desta barca que parece estar preste a afundar-se. Falta doce. 
A gata olha-me, espera uma festa, um pouco mais do seu doce alimento. O mais certo é não querer mais que um pouco de atenção, um tempo a meu lado, companhia. Os dias repetem-se. 
A regra é não saber o amanhã, aceitar cada jornada como uma cópia, pior, da anterior, ter esperança que um dia, um doce dia, a paz seja notícia, os soldados dispam as fardas, regressem  a casa e voltem a comer pão com marmelada a cada nova manhã olhando o azul do céu por uma qualquer janela.

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