Ode a uma avó
Era uma vez uma estrofe, pequenina, perdida na floresta dos poemas. Assim era a minha avó. Quando despertei já ela teria mais que a idade que hoje tenho. Muito antes já ela me embalava. O seu verso já tinha começado a moldar o meu soneto.
No princípio, era meramente não ser. Depois fui uma pequenina casca a flutuar na infinidade do que ainda não era. Para só depois ser gente e sentir a beleza da minha avó. Velhinha, mas bela. No entretanto, passei por umas quantas décadas, umas duas ou três gerações. Já tenho quem me chame avô. Que poema lhe vou passar? Que réstia perdurará do belo que me foi doado pela minha avó?
Relembro o som dela, a sua própria música, a sua frequência de ressonância. A voz suave e aconchegante. Os movimentos silenciosos. Uma pequena flauta, um oboé. Uma canção que nos adormecia quando felizes voltávamos da praia. Cheirava a flores de laranjeira, a figos, a cal, a lençóis lavados com amor. Cheirava a bolo simples, delicioso, coberto de doce glacé branco. Sabia a longos almoços, saborosos. A pele da minha avó eram serenos vales levemente sulcados, encimados por dois cristalinos cor de oceano e cabelo do tom da mais preciosa pérola. A beleza na união das mais puras sílabas poéticas. Tudo rimava na minha avó até que a sua voz se calou e o poema deixou de ser o que era. Um dia também deixarei de ser.
Julho 2026
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