Fio de calma

Não sei definir a forma da linha que une o ponto em que o nosso olhar se cruzou com o indelével momento em que uma neta nos dá o primeiro beijo antes de ir dormir. Como unir este delicioso beijo ao instante em que as nossas mãos se uniram para não mais se separarem. Como definir um caminho que é um longo infinitésimo. Anos, algumas décadas, mas não mais que o ontem que volta a ser hoje, réplicas do mesmo átomo temporal. Um inquebrável fio de linho que une fragmentos de tempo que fazem parte do mesmo mistério, do belo que é viver quando se é afortunado. A cada dia não deixo de me surpreender e o fio cresce um pouco mais sem que aquela fração de tempo mude. Tudo faz parte do primeiro olhar, do primeiro beijo, das mãos que se enlaçaram um dia lá atrás. A neta dorme ao colo do pai, numa mímica perfeita do passado que afinal continua, que presente se afirma. Círculos concêntricos sobrepostos, regressando sempre ao início dos tempos, ao encontro improvável entre dois seres, que origina outros encontros, tão improváveis como o primeiro.

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