Fáscia
Carlos Filipe pensou ouvir algo sobre fascinação. No entanto, a posição em que se encontrava, em que ela o tinha colocado, impedia que tivesse uma audição sem filtros, imparcial. Ela falava em falta de mobilidade; ele sentia a mais pura das imobilidades. Não podia acreditar que a porcaria dum tecidozinho, que ela apelidava como fibroso, fosse lá o que isso fosse, o tinha levado ao tapete, a ser indecentemente dominado. Enquanto ela o enlaçava nas suas pernas, ele calava o gemido, escondia a fraca face. A vergonha calava a dor, esmagava a alma, enquanto ela se esforçava por lhe esticar o pernil e dobrar-lhe cada articulação para lá do limite do impossível. Torcia-o como se espremesse um simples trapo. Ele tentava em vão expressar algum tipo de sentimento, pedir-lhe clemência, inverter as posições, resistir. Mas ela continuava a revoltar-lhe as entranhas, alegando que estavam agarradas a uma tal de fáscia sem acção, um molhe de fibras que se tinham perdido pelo caminho. Quem tinha perdido fibra era ele, disso não tinha a menor dúvida. Numa atitude no mínimo fascizante, sem qualquer fascínio, ela puxava e repuxava a fáscia, obrigava-o a debater-se sem direito a mas, nem meio mas. Carlos Filipe perdera toda a capacidade de fascinar, claudicava às mãos duma fásciazita.
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