Acorde a muda nota
O acorde é o mesmo, mas a nota muda. Tomo esta nota para não esquecer, porque muda é como a sinto e acordado deveria estar. Ninguém nota que escrevi esta nota, tão entretidos estão em acordar as notas que embalam os acordes. Na verdade, é um festival de notas e acordes, salvo para aqueles que mudos deixam as notas repousar e os acordes fugir. Gosto de madrugar, de acordar a pequena e a grande poesia que as notas e os acordes dão sinais de bem despertar. Sei que para sustentar os poetas, mesmo que seja um pequeno grupo, são precisas notas. Não servem as do monopólio, têm de ser notas a sério, mas compondo acordes de brincar. Pergunto se nota alguma coisa estranha neste texto. Se sim, estão estamos em acordo. Logrei talvez despertar a sua atenção para os trocadilhos, tal como podia ter apelado aos nardos e aos cardos num jogo de dardos que lanço de acordo com a beleza de cada uma destas flores sem tempo, indeléveis.
Oiçam, oiçam agora o nascimento de uma nota, a composição de um acorde. Não falo por acaso em nascimento, como devem ter notado. Tudo começa quando o vento muda (mais um que gosta de surdas mudanças de sentido), aos poucos as vozes elevam-se, vão ganhando cor, volume, um uivo, um grito sobrevoa a sala. Talvez esteja uma oitava acima, quem sabe o tom deva mudar.
Canção número um, Acorde a muda nota, doze pontos. Então, apercebeu-se da razão para eu atrás ter evocado a palavra festival? É verdade, não está enganado, mas cuidado, o Ari, para lá do apelido, tem pouco de santo, é um mestre do disfarce, da ilusão, da farsa, do dizer sem dizer, sempre nos deixando na incerteza entre um som alegre e um triste não, entre a laranja amarga e a doce. Quem sabe onde isto irá parar e para ser honesto não sei o que virá depois. A vida é festa, esta vai durar até às tantas e são as doces notas que dão o mote que nos leva ao engano. O contrário não é mais que mágoa, tudo aquilo em que ninguém quer acreditar. Voltamos a desfolhar acordes, soltamos o cavalo e com um olhar sereno chamamos a menina que se aproxima com pés de lã. Talvez não seja mais que um amor que nunca vimos, uma paixão inventada, uma efémera tentativa de amar em dobro. Um ser sem outro ser é ninguém.
E se um dia alguém perguntar por mim, digam-lhe que estas palavras são minhas, dêem nota da prosa, acordem as nuvens, as minhas preces. Mas eles que fiquem mudos, que nunca me dêem conselhos, que afastem o mal, que permitam que troque a minha vida por um dia de ilusão.
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