Reconfinar

Voltamos a órbita geoestacionária. Do posto de comando recebemos ordem para reconfinar, dizem-nos que voltámos a ter o dever civico de recolhimento nas naves, que as zonas que habitamos estão impróprias, impuras, ocupadas por selvagens que não lavam as mãos e não usam o acessório. Coitados, como querem que ganhem a vida sem se deslocarem em latas de sardinha, uns em cima dos outros, respirando o mesmo ar, inalando a mesma bicharada? Alguns assumiram que estava resolvido, que o bicho se tinha cansado, que era hora de festejar, de voltar ao normal. Nada mais errado; continua cá e isto continua uma verdadeira anormalidade. Dum momento para o outro voltámos atrás; sinto-o desse modo. Depois duma hora a mobilizar o corpo, sento-me no passadiço traseiro da nave, bebo o café da manhã e olho o planeta lá em baixo. Está fresco, oiço gaivotas, os ruídos da nave a acordar. Daqui a pouco rumamos a oeste, na esperança que o tempo esteja de feição e possamos gozar uns poucos dias de verão, sim, já estamos no verão. Logo continuarei a escrita do livro, talvez autobiográfico, talvez não, um misto de memórias rescritas e de muita ficção. Somente sei que escrevo pelo puro prazer que isso me dá, sem um objectivo claro, com uma direcção que vou ajustando, com uma única certeza, quero continuar. Desejo-lhes um excelente fim de semana. #EuQueroVoltar #VaiFicarTudoBem

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