Estranho vazio

A vida é uma fina linha: estreita, delgada, sensível. Estamos suspensos, num estranho vazio que pressentimos completamente preenchido, numa nostalgia que se pega à pele, na saudade que ainda não é, na certeza que, daqui a pouco, tomará conta de nós. Assalta-nos, sem surpresa, a embriaguez da partida, o ponteiro a correr, a hora que se aproxima, a inesperada multidão, o habitual difícil humor manital, a necessidade de manter o sorriso, a paz do gesto várias vezes repetido. Procuramos a vontade de partir, parece não estar, sentimos uma estranha dificuldade em descolar, não compreendemos a dúvida. Um rápido abraço, um derradeiro beijo, a palavra que consola mas que não queremos ouvir. Atravessa a barreira - electrónica, moderna, asséptica -, a ansiedade desce, o nó aperta; disfarçamos mal, esperamos a sua mensagem, uma confirmação. Dentro em pouco flutuará, por umas horas; pousará além, um pouco mais a norte. Abandonamos a demasiado familiar gare. Já planeamos o reencontro; enganamos o desencontro. Pedimos o absurdo, esmagados pelo paradoxo. Queremos que partam, ficando; desejamos que fiquem, partindo. Para que merda lhes damos asas? Sabemos a resposta, não queremos outra: é para isso que os preparamos, sem total consciência, sem, nunca, nos prepararmos a nós. Desconhecemos quando mas sabemos que acontecerá. Resta saber que, em breve, estaremos novamente juntos. Resta a felicidade da tristeza que sentimos, do bom que é a poder sentir, de ter a fortuna de os ver partir, felizes, senhores do seu caminho.

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