Tradição de Natal

Nina enche a sala com a sua voz negra (restaurada diz na caixa: para quê? Será, sempre, jovem, actual). Diz-nos que Ele leva o mundo inteiro nas suas mãos. Talvez, ontem, Ele nos tenha levado no meio da tempestade, no dilúvio ininterrupto de grossas lágrimas, num choro que só amainou quando nos aproximámos, que se extinguiu quando nos receberam com o abraço quente do Natal. Ao chegar, por breves instantes, recuámos, lembrámos outros Natais. Seguimos em frente: não importa o local - estava bonito, morno, cheiroso -, desde que estejamos juntos, festejando o gosto de partilhar as afectuosas memórias comuns, aqueles que nos fazem falta, os sabores e os néctares.  Ali estávamos, mais uma vez, todos, juntos, à volta da mesa, à volta do bacalhau, dos bacalhaus, dos doces; conversando, em paz.
Os embrulhos estavam bonitos: caprichámos; fomos recompensados pelos sorrisos, pela recusa em os desmanchar, pelas belas lembranças que recebemos, por, simplesmente, estarmos ali.
Sentimos que estamos a criar novas tradições, de alguma forma a perpectuar aquelas que nos passaram. O perú assa no forno: mãe e filha partilham saberes e sabores. Ouvimo-las, na cozinha, e vamos sorrindo.
Novamente a mesa está posta, está bonita; mais uma vez partilhamos, mais uma vez desejamos que tudo se repita para sempre; que aquele delicioso e suculento perú passe a fazer parte integrante da tradição.
Um improvável Rod canta Silent Night: sentamo-nos, vemos desenhos animados e disfrutamos da doce dolência dum dia de Natal.

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