No entanto aconteceu

Descendo a falésia, olhando o azul, Noémia lembrou-se, sem perceber porquê, daquele ínfimo instante, do momento primeiro, meses atrás, no foyer da Gulbenkian: aquele ligeiro toque, sem querer, num desconhecido. Nenhum dos dois se apercebeu da mudança de estado dos seus corpos, uma quase inexistente energia permutada, apesar de nela, como em qualquer fêmea, algo mais ter sido activado: um indelével detector passava a estar atento.
Noémia era uma mulher feia duma rara beleza; nenhum padrão lhe era aplicável: nem loura nórdica, nem morena siciliana, nem outro modelo qualquer. Era preciso mergulhar no seu sorriso e no seu denso cabelo castanho para perceber o seu encanto. Certamente, na entrada para o concerto, não teria atraído a atenção de Ignácio, como antes não tinha revirado os olhos a qualquer outro homem. Era preciso tempo para uma leitura correcta do seu ser e aquela fracção em que os seus corpos se tinham tocado não tinha sido, decerto, suficiente. Na verdade não tinham sido os corpos mas somente o dorso da mão esquerda dela com a correspondente superfície da direita dele. Para sermos mais precisos (talvez neste caso seja importante o rigor) somente o osso capitato - particularmente saliente nas longas mãos dela - percorreu a diagonal do dorso da mão dele, do pulso até ao encaixe do polegar.
Desceu mais um lance de escadas em direcção ao mar azul, translúcido; a praia vinha ao seu encontro: valia bem os quarenta degraus sob um sol abrasador. Grupos extensos subiam, bocas abertas, sem pronunciarem palavra, olhares ausentes, sorrisos algo forçados, dando descanso aos corpos encarniçados em cada patamar. Um pequeno sinal soltou-se do sensor activado meses atrás e obrigou Noémia a flectir a cabeça para trás, desviar a atenção dos degraus e a focar o olhar bem para a sua frente: reconheceu-o mesmo não sabendo quem era; um arrepio percorreu o seu corpo sobreaquecido pelo sol de verão. Passaram um pelo outro, separados somente pela distância a que a boa educação e o pudor obrigam. Ele, mais uma vez, nem se apercebeu; para ela foi um momento único, quase mágico: uma fracção em suspenso, levitando, tentando assimilar tudo aquilo. A suspensão foi tal que escorregou e por pouco não caia, escadas abaixo. Mais uma vez os seus corpos - neste caso a mão firme dele no antebraço dela - tocaram-se. Consegui reequilibrar-se; ele sorriu, perguntou-lhe se estava bem e seguiu escada acima; ela por ali ficou, extasiada, recuperando. Porque teria aquele estranho ficado gravado na sua memória de forma tão inaudita? Porquê lembrar-se daquele primeiro toque, segundos antes de cruzar-se com ele? Agora que o conhecia, não era o rosto que a incomodava - bem bonito por sinal - mas aquela, como até então nunca tinha sentido, atracção por outrém, por um desconhecido. Sabia, como doutorada em química molecular, que a probabilidade dum acontecimento como aquele, era muito baixa. Menor era, ainda, a da sequência de acontecimentos, ou seja, a probabilidade de reencontrar um desconhecido que meses antes tenha tocado levemente na nossa mão à entrada dum concerto: certamente baixíssima; no entanto aconteceu-lhe.
Esteve pouco tempo na praia, ausente, varrendo, inconscientemente, o espaço em volta, procurando perceber o que para si era impossível: detectar outro ser. Pensou: "oxalá esteja alojado na vila; Deus queira não tenha voltado à praia". Evocara dois deuses, em duas frases contraditórias, sem ser, conscientemente, devota de nenhum deles ou de qualquer outro; era uma cientista: sabia que a comunicação extra-sensorial era terra de bruxas e adivinhos mas a verdade é que tinha percebido a presença dele bem antes de ter contacto visual; não o podia negar mas não sabia explicar. Achou melhor voltar para casa e esquecer tudo aquilo.
Tinha herdado, da mãe, uma pequena casa de férias estrategicamente localizada entre a praia e a vila: o refúgio onde permanecia longos períodos de isolamento, interrompidos, de vez em quando, pela visita dos sobrinhos ou de algum dos escassos amigos.
Acordou bem disposta depois duma noite em que, pela primeira vez em meses, não repetiu o mesmo sonho: não se lembrava dos pormenores dos sonhos mas sabia que tinha sido sempre o mesmo até àquela noite; a interrupção seria, com toda a certeza, mais uma coincidência.
Vestiu, pela primeira vez, o fato de banho vermelho com pintas brancas que há muito tinha comprado mas a que nunca se tinha atrevido, sequer, a retirar do saco da loja. Podia não ser bonita mas mantinha um corpo que faria inveja a outras bem mais novas que ela: o trapo, como gostava de chamar a tudo o que não cobria o corpo decentemente, assentava-lhe como uma luva, tirava-lhe uns poucos anos. Foi, directamente, para a praia sem parar para o habitual café; precisava estar lá.
Ignácio não sabia de nada até ao dia em que tudo lhe aconteceu. Desta feita foi ele que avançou primeiro: quis saber se ela estava bem. Ela tinha-o pressentido, bem antes dele levantar-se, bem antes de chegar junto dela; na realidade soube da sua presença mal ele pisou o primeiro grão de areia. Ele tinha sido praticamente obrigado a olhar naquela direcção, a reconhecê-la, a levantar-se, caminhar e a pedir para sentar-se ao lado dela, próximo do mar. Chegou junto dela praticamente sem sentir a areia quente ou a molhada, numa sequência de passos sem peso que nunca antes tinha realizado: precisou olhar para trás para confirmar que tinha deixado um rasto de pegadas na areia; para dar um pouco de realidade a tudo o que lhe estava a acontecer.
Conversaram sobre tudo e sobre nada; convidou-a para jantar; ela aceitou. Nunca, por não saberem como o fazer, mencionaram a estranha força que os impelia a aproximarem-se.

Comentários

  1. Alexandre, parabéns. Não sabia que escrevias tão bem! Gostei muito. Sofia

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