Altar (texto sem cês)

Tínhamos planos; o Alentejo era a nossa terra prometida: São Pedro mudou-nos as voltas -  manteve-nos por aqui; queria que fizéssemos a anual volta das sete igrejas. Dia errado, deveria ter sido ontem - estes são de retiro e de reflexão interior perante a morte, as igrejas estão vazias, em lágrimas. Debalde palmilhámos por um altar. Aproveitámos o tempo - o do relógio porque o outro estava demasiado irado - para desfrutar, mais uma vez, o emaranhado de ruas e ruelas da zona baixa desta nossa urbe: poderão existir lugares, objectos ou pessoas, epónimos de Lisboa mas não existe outro burgo, outro lugar, igual a este, banhado por mar e firmamento.
O Tejo, o rio desta nossa aldeia, já foi multífero, ninho e lar de múltiplos seres, alimento farto de muitas mesas; hoje é uma massa plissada de águas revoltas, negras como as nuvens; envolve Lisboa -  demasiado molhada e friolenta -, qual pai dominador, qual régulo servindo-se da natureza em seu proveito.
O vento aprisiona as gaivotas e os pombos numa alvéolo invisível, pairando no ar, sem fronteiras definidas, sobre as águas; levado pelo arroubo, quase sofreguidão, disparo, aprisiono aqueles instantes na retina digital - velocidade elevada para que aqueles ínfimos instantes de luta, pássaros combatendo o vento, fiquem impressos, nítidos, indeléveis, para sempre.
Afinal o nosso altar, o terreiro que foi real, estava ali mesmo: Deus manifestava-se em todo o seu esplendor perante nós.
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Arroubo: Entusiasmo; fervor; encanto
Epónimo: que dá o seu nome a alguma coisa [adjectivo]
Multífero: que produz muito, fértil, fecundo [adjectivo]
Friolenta: o mesmo que friorenta [adjectivo]
Régulo: Pequeno Rei [substantivo]
Debalde: em vão [advérbio]
Plissado - Com rugas [adjectivo]

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